Olá! Na aula anterior, estabelecemos quando um corpo pode ser reduzido ao modelo de partícula: quando suas dimensões e sua forma não alteram de maneira relevante a resposta procurada. Agora vamos decidir como localizar essa partícula.
Dizer apenas que “um carro está a 10 metros” ou que “uma pessoa está parada” é incompleto. Dez metros a partir de onde? Parada em relação a quê? Nesta aula, você vai aprender a escolher conscientemente um referencial, uma origem e um sentido positivo para descrever movimentos em uma dimensão. Essa convenção será a base para todas as posições, deslocamentos, velocidades e acelerações que estudaremos depois.
Movimento e repouso dependem do referencial
Em Cinemática, um referencial é o sistema em relação ao qual comparamos as posições de um corpo ao longo do tempo. Na prática, ele está associado a um objeto, região ou conjunto de marcos que escolhemos tratar como fixo durante a análise: o solo, uma estrada, os trilhos, a cabine de um elevador ou o interior de um trem.
Considere uma passageira sentada em um ônibus que se desloca por uma avenida:
- em relação ao ônibus, a passageira permanece na mesma poltrona; está em repouso;
- em relação à avenida, sua posição muda continuamente; está em movimento.
Não há contradição. “Estar em movimento” não é uma propriedade absoluta do objeto: é uma afirmação que só ganha sentido depois de indicar o referencial.
Em problemas introdutórios, é muito comum adotar a Terra, o solo ou uma estrada como referencial. Embora a Terra esteja em movimento em escalas astronômicas, ela pode ser tratada como fixa quando estudamos, por exemplo, um carro numa rodovia ou uma bola num campo. Essa escolha é uma aproximação útil porque o movimento da Terra não altera de modo relevante a questão estudada.
Referencial | Conceitos básicos de cinemática | Aprendendo Física
Assista a trechos de “Referencial | Conceitos básicos de cinemática”, do Professor Douglas Gomes. Eles apresentam a necessidade de sempre localizar um corpo em relação a algo e mostram, com o caso de um passageiro, por que repouso e movimento são relativos.
No início, assista a a motivação, desde a pergunta sobre a posição da mão até a conclusão de que é preciso eleger algo como fixo para fazer marcações. Depois, avance para o passageiro. Compare cuidadosamente a descrição da pessoa no referencial da rua com a descrição no referencial do carro.
A escolha do referencial deve servir à pergunta física. Se o objetivo é saber se um passageiro anda dentro de um trem, o próprio trem é uma escolha natural. Se o objetivo é acompanhar o trem entre duas estações, os trilhos ou o solo são mais convenientes.
Uma boa escolha geralmente tem duas vantagens:
- torna imóveis os marcos importantes do problema;
- deixa a descrição do movimento mais simples e clara.
Por exemplo, para estudar o deslocamento de um carrinho em uma calha, é conveniente fixar o referencial na própria calha e alinhar o eixo de posição com ela. Já para estudar a caminhada de uma pessoa dentro de um vagão, um eixo preso ao vagão pode ser mais útil.
Do referencial ao eixo unidimensional
Nesta parte do curso, estudamos movimentos em uma dimensão. Isso significa que a trajetória relevante é uma reta: uma estrada aproximadamente reta, um trilho, o percurso vertical de um elevador ou uma calha inclinada.
Em vez de usar três coordenadas espaciais, como em uma sala, basta construir uma única reta orientada, normalmente chamada de eixo . Para que esse eixo descreva o movimento sem ambiguidades, são necessárias três decisões:
| Decisão | O que ela define | Exemplo em uma estrada |
|---|---|---|
| Referencial | O conjunto de marcos considerados fixos | A estrada e seus marcos quilométricos |
| Origem | O ponto que recebe a marca | Um posto de combustível |
| Sentido positivo | O lado em que as posições terão sinal positivo | O sentido em direção à cidade B |
A unidade de medida também precisa ser indicada. No Sistema Internacional, usaremos principalmente o metro, , para comprimento.

Observe que a seta “positivo” na imagem não significa que carros que se movem para a direita estejam necessariamente “indo para a frente” em algum sentido universal. Ela apenas estabelece uma convenção de sinais. Poderíamos escolher a esquerda como sentido positivo; a Física continuaria correta, desde que mantivéssemos a escolha em toda a solução.
A origem: o ponto de coordenada zero
A origem é o ponto do eixo ao qual atribuímos a coordenada . Ela é um marco escolhido, não uma propriedade especial do lugar.
Em uma corrida de , é natural escolher a linha de largada como origem. Em uma viagem entre duas cidades, talvez seja mais útil escolher uma praça, um pedágio ou a garagem de onde um veículo parte. No movimento de um elevador, pode-se escolher o térreo como origem.
A origem não precisa coincidir com a posição inicial do objeto. Essa é uma fonte frequente de confusão.
Imagine um ciclista que começa a ser observado quando passa por um marco situado à direita da origem. Mesmo no instante inicial da observação, ele terá uma posição diferente de zero. A origem descreve o sistema de medida; o instante inicial descreve quando começamos a acompanhar o fenômeno. São escolhas independentes.
Também é possível trocar a origem. Isso muda os números usados para indicar as posições, mas não muda o evento físico. Uma árvore continua no mesmo lugar da estrada, ainda que um observador use o quilômetro de uma cidade e outro use um posto situado adiante como origem.
A ideia importante é:
A origem é uma referência espacial escolhida para organizar a descrição, não o “começo real” do movimento.
O sentido positivo: uma escolha de orientação
Depois de definir a origem, é preciso indicar qual lado do eixo será positivo. O outro lado será automaticamente negativo.
Há convenções comuns:
- em movimentos horizontais desenhados no papel, costuma-se adotar a direita como positiva;
- em movimentos verticais, costuma-se adotar para cima como positivo;
- em problemas de queda livre, pode ser conveniente adotar para baixo como positivo;
- em uma corrida cuja trajetória segue para a esquerda da figura, pode ser mais simples declarar a esquerda como positiva.
Nenhuma dessas escolhas é obrigatória. O critério mais importante é a consistência.
Física 1 - Movimentos unidimensionais | Deslocamento e velocidade média - Aula 1.2
Veja o trecho “Física 1 - Movimentos unidimensionais | Deslocamento e velocidade média - Aula 1.2”, do canal Uai Física. Ele condensa o procedimento de escolher uma origem e associar sinais aos dois lados de uma trajetória retilínea.
Assista a a construção do eixo. Acompanhe a passagem em que a origem é marcada como zero e os pontos à direita e à esquerda recebem, respectivamente, sinais positivo e negativo. Retenha o princípio geral: a escolha pode ser diferente, mas deve ser declarada e preservada.
Suponha que uma esfera se mova para baixo ao longo de uma guia vertical. Existem duas descrições igualmente válidas:
| Convenção | Posições abaixo da origem | Descrição qualitativa durante a descida |
|---|---|---|
| Para cima é positivo | Negativas | A coordenada diminui |
| Para baixo é positivo | Positivas | A coordenada aumenta |
A esfera não muda seu movimento quando mudamos a convenção. Muda apenas a maneira numérica de descrevê-lo.
Evite, portanto, associar “positivo” a “bom”, “para frente”, “subindo” ou “acelerando”. Em Cinemática, positivo e negativo são inicialmente apenas rótulos associados aos dois sentidos possíveis de um eixo. Mais adiante, esses sinais permitirão interpretar com precisão velocidade e aceleração.
Como fazer uma escolha adequada
Antes de qualquer cálculo, monte mentalmente uma frase de referência. Ela deve informar o objeto usado como base, a origem e a orientação do eixo.
Por exemplo:
“Adoto a estrada como referencial, o posto como origem e o sentido para a cidade B como positivo.”
Ou:
“Adoto o prédio como referencial, o térreo como origem e o sentido vertical para cima como positivo.”
Essa declaração curta elimina ambiguidades e revela escolhas inadequadas antes que elas causem erros.
Use o seguinte procedimento:
-
Identifique a trajetória relevante.
Se o movimento ocorre ao longo de uma reta, desenhe ou imagine um eixo nessa direção. Para um elevador, o eixo é vertical; para um carrinho em trilhos retos, ele acompanha os trilhos. -
Escolha um referencial ligado aos marcos úteis.
Para o deslocamento de um automóvel pela cidade, o solo é normalmente adequado. Para a caminhada de uma pessoa dentro de um ônibus, o ônibus pode ser adequado. -
Escolha uma origem visível ou conveniente.
Prefira um marco simples: uma porta, a linha de largada, o térreo, um cruzamento ou o ponto onde uma medição começa. A escolha deve facilitar a comunicação e os cálculos, não obedecer a uma regra fixa. -
Defina explicitamente o sentido positivo.
Escolha a orientação que torne a descrição mais natural para o problema. Em particular, não troque essa orientação no meio da resolução só porque apareceu um sinal negativo. -
Mantenha a convenção até o fim.
Se a direita foi escolhida como positiva, toda posição à esquerda da origem terá sinal negativo. Se para baixo foi definido como positivo, os valores e interpretações futuras devem respeitar essa opção.
Um exemplo completo: elevador
Considere um elevador que sai do térreo e sobe até o quinto andar.
Uma convenção particularmente clara seria:
- referencial: o edifício;
- eixo: uma reta vertical ao longo do poço do elevador;
- origem: o piso do térreo;
- sentido positivo: para cima;
- unidade: metro.
Nessa descrição, andares acima do térreo terão coordenadas positivas. Se houvesse um subsolo, ele teria coordenada negativa.
Mas outra descrição também poderia funcionar:
- origem no quinto andar;
- sentido positivo para baixo.
Nesse caso, o térreo apareceria com uma coordenada positiva, e o quinto andar teria coordenada zero. Pode parecer menos intuitivo para esse contexto, mas não está errado. A primeira escolha é preferível porque torna a comunicação mais direta e deixa os sinais mais fáceis de interpretar.
Esse exemplo evidencia uma distinção fundamental:
- a realidade física não depende da convenção;
- os números usados para descrevê-la dependem do referencial, da origem e do sentido positivo.
Erros conceituais a evitar
Alguns erros surgem porque essas três escolhas são misturadas.
“O referencial é apenas o ponto zero.”
Não exatamente. A origem é um elemento do sistema de coordenadas. O referencial envolve a base em relação à qual as posições são medidas e o modo de organizar essas medidas.
“A origem deve ser onde o móvel começa.”
Não. A origem pode ser escolhida em qualquer ponto conveniente do eixo.
“Direita deve ser positiva.”
É uma convenção comum, não uma lei física. Esquerda pode ser positiva se isso for mais útil.
“Se um corpo tem posição negativa, ele está se movendo para trás.”
Não necessariamente. Uma posição negativa informa onde ele está em relação à origem e à orientação escolhida. O sentido do movimento exigirá comparar posições em instantes diferentes ou estudar a velocidade, assunto das próximas etapas.
“É possível mudar o sentido positivo no meio das contas.”
Só seria possível se toda a descrição fosse refeita de forma coerente. Em uma resolução normal, isso é uma fonte de erros; escolha uma convenção e preserve-a.
Síntese
Para descrever um movimento em uma dimensão, não basta observar o objeto: é necessário construir um sistema de descrição.
- O referencial estabelece em relação a quais marcos o movimento será analisado.
- A origem é o ponto arbitrariamente definido como coordenada zero.
- O sentido positivo orienta o eixo e determina quais posições receberão sinais positivos ou negativos.
- Não existe uma escolha universalmente correta; existe uma escolha que é clara, conveniente e mantida com consistência.
Na próxima aula, usaremos esse eixo já definido para representar a posição de uma partícula por uma coordenada algébrica, interpretando corretamente valores positivos, negativos e nulos.
Can't find a good explanation? Sign up and we'll make it for you
Sign up